Hoje vamos receber aqui no nosso blog, o fisioterapeuta Ricardo Pereira. O tema do texto é cefaleia nos idosos!
Vamos lá!
Dentro do universo multifacetado da Geriatria e Gerontologia, encontramos um capítulo especial relacionado com as dores de cabeça ou cefaleias dos idosos, que se manifestam das mais diversas formas. Lembrando sempre a extensão de faixas etárias contadas a partir dos 60 ou 65 anos, que caracterizam cronologicamente ser IDOSO.
Ao final desse ensaio o leitor será capaz de reconhecer as classificações das cefaleias dos idosos, suas implicações no contexto geral da saúde, a importância do diagnóstico diferencial, o papel da Fisioterapia e suas alternativas.
Epidemiologia:
A cefaleia é o sintoma neurológico mais comum com aproximadamente 46% da população global afetada em algum momento da vida (1). Embora se torne menos frequente com o aumento da idade, a prevalência anual de cefaleias em idosos (acima de 65 anos) é de 51% (1). Isso requer uma minuciosa consideração com relação ao diagnóstico e opções de tratamento, especialmente na relação com outros fatores de risco e comorbidades presentes (2). As cefaleias primárias compreendem 2/3 de todos os diagnósticos em idosos mas, um alto índice de suspeitas da presença de cefaleias secundárias, é propiciado pela alta frequência de diferentes sintomatologias em relação aos adultos jovens, mostrando que um percentual acima de 19,7% de novos episódios em idosos, resultam de sérias causas secundárias (1).
A cefaleia de uma forma geral acomete mais as mulheres, é o 10º sintoma mais comum em mulheres idosas e o 14º em homens, uma relação que vai se estreitando pós-menopausa e cada vez mais com o aumento da idade (3).
Em todos os casos de novos episódios de cefaleia em idosos, é fundamental o diagnóstico diferencial entre as cefaleias primárias e secundárias, normalmente composto de exame clínico, laboratorial e neuroimagem a depender das RED FLAGS reconhecidas (1,3).
Bandeiras vermelhas na cefaleia
– Primeiro ou pior episódio de cefaléia
– Cefaleia severa com início súbito (thunderclap)
– Novo evento de cefaleia acima dos 50 anos
– Mudança de padrão ou frequência de uma cefaléia típica
– Exame neurológico anormal
– Sintomas neurológicos persistindo por mais de 1 hora
– Cefaleia disparada pela manobra Valsalva ou esforço
– Cefaléia com convulsão ou alteração da consciência
– Novo evento de cefaleia com estado imunosuprimido, infecção pelo HIV, malignidade, gravidez, infecção ou doença sistêmica
Classificação:
As cefaleias primárias são definidas pelo critério clínico e são diagnosticadas baseado na descrição dos sintomas e na exclusão de causas secundárias, estas então sendo descritas pelas etiologias suspeitas de estarem relacionadas. Dentre as cefaleias primárias estão: as tensionais (mais comuns), as migrâneas (3 à 10%), as tipo cluster (10%), as crônicas diárias (2 à 4%), cefaleia da tosse e as hípnica (1,2,3,4).
As cefaleias secundárias podem ser oriundas de várias entidades clínicas mais graves ou menos graves: (1,2,3,4,5)
- – Arterites de células gigantes
- – Neuralgia do trigêmeo
- – Neuropatia pós-herpética do trigêmeo
- – Doenças cerebrovasculares (“cefaleia do trovão”)
- acidentes vasculares encefálicos
- hemorragia intracraniana
- hemorragia subaracnóidea
- dissecção de artérias cervicais
- trombose venosa
- hipotensão intracraniana espontânea
- – Cefaleia atribuída ao uso de medicamentos
- – Cefaleia cervicogênica
- – Tumores
- – Trauma da cabeça
- – Cefalalgia cardíaca
- – Cefaleia da apneia do sono
- – Cefaleia atribuída a glaucoma subagudo
Antes de falar dos cuidados devemos lembrar de que idoso estamos tratando e que atualmente podemos diferenciar o envelhecimento em 4 categorias de acordo com OMS meia-idade (45 à 59 anos), idoso (60 à 74 anos), ancião (75 à 90 anos) e velhice extrema (90 anos em diante). Porém, essa escala cronológica nem sempre reflete a funcionalidade e a saúde física, mental e orgânica. A utilização do índice de fragilidade será importante, como apresentado abaixo:
Com relação as avaliações e opções de tratamento tanto médico quanto fisioterapêutico, devido a multicomplexidade dos processo de envelhecimento e do paciente idoso, ficaria um trabalho muito extenso e fora do escopo desse pequeno texto. Portanto, falaremos em linhas gerais os pontos. A avaliação médica deverá ser a mais completa possível tanto clínica quanto Neuro-Ortopédica, para então poder definir o diagnóstico e elaborar o programa de tratamento. Se esse for medicamentoso e sabendo da variedade, da individualidade e complexidade dessas prescrições, apenas vale ressaltar o risco de uso excessivo e cruzamento inadequado de medicamentos, causando a própria sintomatologia e outras complicações à saúde (vide causas secundárias), pensando sempre que um idoso poderá naturalmente fazer uso de alguns fármacos no dia a dia a depender das condições clínicas e psicológicas. O papel da Fisioterapia será de extrema relevância no tratamento das cefaleias, como já explorado em muitos outros textos colocados no site, apresentando muitos conceitos, métodos e técnicas diferentes (terapias manuais passivas, exercícios específicos, exercícios gerais, biofeedback, hipnose e outros) bem como a combinação entre elas, com evidências claras, apesar de não tão fortes, principalmente no quesito da sobrepujança de alguma em relação as outras (6,7,8,9), já que o paciente idoso por si só muitas vezes apresenta uma variedade de sinais, sintomas e déficits funcionais que devem ser considerados desde a avaliação, como por exemplo: outras dores além da cefaleia, história de quedas e alterações do equilíbrio, alterações visuais e auditivas, sarcopenia, dinapenia e problemas articulares da coluna vertebral e periféricas, o padrão nutricional, as funções cognitivas, o padrão biopsicossocial e as condições clínicas gerais. Esses elementos podem influenciar positiva ou negativamente na condução do tratamento da cefaleia e os resultados obtidos. Ou seja, tudo isso poderá fazer parte do programa de trabalho a curto, médio e longo prazo a depender do projeto a ser elaborado. Sendo muito longo o assunto como já dito, além das referências utilizadas, apresentaremos uma relação extra de trabalhos a quem interessar possa para aprofundar a leitura sobre o tema.
Sumarizando: pontos chaves
– a cefaleia é um sintoma comum nos idosos
– apresenta-se mais nas mulheres e pós menopausa equilibra com os homens
– importância do diagnóstico diferencial
– obervar o uso de medicamentos e seus cruzamentos
– tratamento multiprofissional
– evidências claras da importância da Fisioterapia
– importância da saúde em geral e estilo de vida nos resultados
Fisioterapeuta Convidado:
RICARDO PEREIRA
FISIOTERAPEUTA / ACUPUNTURISTA
CREFITO 2 – 20893 F
REFERÊNCIAS
1 – Kaniecki, Robert G., Levin, Andrew D., Headache in the elderly, Handbook of Clinical Neurology, cap. 28, vol. 167, 2019.
2 – Starling, Amaal J. , Diagnosis and Management of Headache in Older Adults, Mayo Clinic Proceeedings, 2018;93(2):252-262.
3 – Sharma, Tara L., Common Primary and Secondary Causes of Headache in the Elderly, Headache – American Headache Society, 2018.
4 – Semenov, Irene A., Headache in the Elderly – Disease a Month, 2015.
5 – Bravo, Thomas P., Headaches of the Elderly, Curr Neurol Neurosci Rep, 2015, 15:30.
6 – Uthaikhup, S. et al, Effectiveness of physiotherapy for seniors with recurrent headaches associated with neck pain and dysfunction: a randomized controlled trial, The Spine Journal, 17 (2017) 46-55.
7 – Vindigni, D. et al., Chiropractic treatment o folder adults with neck pain with or without headache or diziness: analysis of 288 Australian chiropractors’ self-reported views, Chiropractic & Manual Therapies, (2019); 27:65.
8 – Fredin, K., Lorás H., Manual therapy, exercise therapy or combined treatment in the management of adult neck pain – A systematic review and meta-analysis, Musculoskeletal Science and Practice, 31 (2017), 62-71.
9 – Peters, R., et al., Comparing the range of musculoskeletal therapies applied by physical therapists with postgraduate qualifications in manual therapy in patients with non-specific neck pain with international guidelines and recommendations: Na observacional study, Musculoskeletal Science and Practice, 46 (2020) 102069.
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